Sonho de 30 anos marca estreia literária de Cristiano Alves
Entrevista exclusiva Repórter Sul
“Esperei 30 anos porque queria que meu primeiro livro chegasse para ficar”
Após três décadas dedicadas ao jornalismo, o braçonortense Cristiano Alves estreia na literatura com o thriller policial “O Décimo Primeiro Mandamento”. Ambientada em Joinville, a obra inaugura o Universo Navarro e apresenta ao público o delegado Douglas Navarro, protagonista de uma trama marcada por assassinatos ritualísticos, conflitos psicológicos e referências ao noir brasileiro.
Como nasceu a ideia de “O Décimo Primeiro Mandamento”?
A semente dessa história surgiu há cerca de 30 anos. Eu era muito jovem quando comecei a escrever os primeiros rascunhos em um caderno brochura, na cama de um seminário. Naquela época eu sequer imaginava que um dia me tornaria jornalista ou escritor. Era apenas uma história que me acompanhava. Com o passar dos anos ela foi amadurecendo junto comigo. Cada experiência profissional, cada reportagem, cada história humana que acompanhei acabou deixando sua marca na construção desse universo.
Por que demorou tanto tempo para publicar seu primeiro livro?
Porque eu queria estar preparado. Muitas pessoas sonham em publicar um livro. Eu sonhava em construir uma carreira literária. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Eu não queria lançar um livro e desaparecer. Queria chegar ao mercado com algo sólido, com planejamento, com um universo consistente e com histórias que pudessem continuar sendo contadas. Foram 30 anos de aprendizado, observação e lapidação.
Hoje tenho a sensação de que a espera valeu a pena.
O que o jornalismo trouxe para a construção da obra?
Praticamente tudo. Durante décadas acompanhei investigações policiais, julgamentos, tragédias familiares, conflitos políticos e dramas humanos. O jornalismo me ensinou que as pessoas são muito mais complexas do que aparentam. Na ficção isso é essencial.
Os melhores personagens não são os completamente bons ou completamente maus. São aqueles que carregam contradições. O jornalismo me permitiu observar essas nuances durante anos.
O livro é inspirado em casos reais?
Não existe um caso específico que tenha servido de inspiração direta. Mas seria impossível afirmar que a realidade não influenciou a obra. Um jornalista passa a vida observando comportamentos humanos. Muitas situações, emoções, medos e conflitos presentes no livro nasceram dessa observação constante da vida real.
Quem é Douglas Navarro?
Navarro é um homem em permanente conflito consigo mesmo. Ele é delegado, mas já quis ser padre. É um investigador experiente, mas frequentemente se vê perdido diante dos próprios fantasmas. É inteligente, determinado e obstinado, mas também carrega falhas, vícios e arrependimentos. Talvez seja justamente isso que o torne humano. Eu nunca tive interesse em criar um herói perfeito.
O que os leitores podem esperar da história?
Suspense, mistério e investigação criminal. Mas também podem esperar uma reflexão sobre temas como culpa, fé, rejeição, obsessão e perdão. O assassinato é apenas a porta de entrada da história. O verdadeiro conflito acontece dentro dos personagens.
O livro é frequentemente associado ao noir. O que isso significa?
O noir é um gênero que me fascina porque ele não oferece respostas fáceis. No noir, os personagens vivem em áreas cinzentas. O bem e o mal raramente aparecem de forma absoluta. As pessoas erram. As instituições falham. As escolhas têm consequências. É um gênero que se interessa muito mais pelas feridas humanas do que pelas soluções.
Quais são suas principais influências literárias?
Rubem Fonseca certamente é uma das maiores referências. Ele ajudou a construir uma identidade brasileira para a literatura policial e mostrou que era possível contar histórias densas e sofisticadas sem abrir mão da nossa realidade.
Também admiro profundamente Caleb Carr, especialmente pela forma como construiu uma investigação complexa e psicologicamente rica em O Alienista. É uma obra que demonstra como o suspense pode caminhar lado a lado com profundidade histórica, desenvolvimento de personagens e tensão narrativa.
Outra influência importante é Umberto Eco. A maneira como ele combina investigação, filosofia, simbolismo e conhecimento histórico em suas obras sempre me impressionou. Ele provou que um romance policial pode ser intelectualmente sofisticado sem perder sua capacidade de prender o leitor.
Além deles, sou influenciado por autores do suspense psicológico e do thriller contemporâneo que trabalham personagens complexos, imperfeitos e moralmente ambíguos.
Por que ambientar a história em Joinville?
Porque Joinville faz parte da minha trajetória. Construí boa parte da minha carreira jornalística na cidade. Vivi ali momentos importantes da minha vida pessoal e profissional. Conheço suas ruas, seus bairros, seus contrastes e suas atmosferas. Queria que a cidade tivesse personalidade própria dentro da narrativa.
O livro também tem um pouco de Braço do Norte?
Sem dúvida. Embora a história aconteça em Joinville, minha forma de enxergar o mundo foi construída em Braço do Norte. Foi aqui que nasceram meus valores, minhas referências e minha maneira de compreender as pessoas. De certa forma, tudo o que escrevo carrega um pouco das minhas origens.
O que é o Universo Navarro?
É um projeto literário que vai muito além de um único livro. O Décimo Primeiro Mandamento é apenas a primeira porta. Existem outras histórias planejadas, novos personagens, novos cenários e novos desafios para Douglas Navarro. Meu objetivo é construir um universo consistente, capaz de acompanhar os leitores por muitos anos.
O que representa este lançamento para você?
Representa a realização de um sonho que atravessou praticamente toda a minha vida. Mas representa também um começo. Muitas pessoas enxergam este livro como um ponto de chegada. Eu o vejo como um ponto de partida.
Que mensagem você gostaria de deixar para os leitores?
Que toda grande história começa com um ato de confiança. Quando alguém compra um livro de um autor estreante, está apostando em algo que ainda não conhece. Eu sou profundamente grato por cada leitor que decidiu embarcar nessa jornada. Espero entregar uma experiência que permaneça com eles muito tempo depois da última página.














